Quando os meios justificam os fins
Nem todo meio tem um fim apropriado. Principalmente quando esse meio não precisava de um fim para ser completo. Às vezes não nos interessa a poesia final, a última rima. Queremos o sabor de viajem pela metade. De lanche no meio do caminho. Particularmente, aprecio a conversa na fila de espera. A distração na janela do carro. O que me interessa está além de onde vamos chegar: chegar é consequência do como.
As maiores histórias acontecem nos seus porquês, nos seus quandos. As grandes morais são um desperdício, um resumo plástico daquela sucessão de acontecimentos maravilhosa. Só nos damos conta da história quando a fechamos. Por isso tanto "feliz, mas não sabia". Sabia.
Por isso, sou um grande apreciador do hoje. Ele me dá mais possibilidades que o futuro, que é um aglomerado bagunçado de fins. Nada mais é o futuro se não o que você espera que ele vá ser, o fim de todos os ciclos que estamos vivendo hoje. Mas é hoje que estamos vivendo.
É como esse texto. Foi escrito porque eu queria escrever. Desejava a viagem, e não o destino. Esse texto é mais um dos meus hojes: um meio que não está muito preocupado em encontrar o seu, ou o meu, fim.
Lucas.
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Cores de um afago finito
Há de se perguntar qual a cor do tempo. Vermelho como as mentiras de nossas bocas falhas ou azul da cor de nossas esperanças. Negro como o adeus dos acenos ou branco da paz de nossa libertação. Há cor entre nosso tempo, de nossa gente, de nossos amores. Ah, nossos amores, que se encontram nas cores de nossas raivas, de nossos apegos, de nossos devaneios. Eu, que negocio com seus olhares, suas palavras curtas que querem dizer inverdades confortáveis. Eu que negocio com a cor de suas vontades, as meias de seus sapatos, os cheiros dos seus perfumes. Eu que negocio com os invernos da sua alma, que por muitas vezes pensei que não existia. Eu, que navego entre suas dores, dou-lhe presentes, esqueço desamores, desafetos. Eu, que abraço o mundo para te dar um sorriso e abraço teu sorriso para me dar um mundo. Eu, que no meio dos segundos, te faço minuto e te quero anos. Eu, que no infinito de seu sorriso mora o finito da minha quietude. Eu, que no silêncio da noite penso no ruído que você trouxe em meu dia. Eu, que atravesso oceanos para nadar no teu lago. E eu, que ao teu lado, espero deitado um afago mais ou menos demorado.
Lucas.
(Versão narrada:
http://dl.dropbox.com/u/15865634/Cores%20de%20um%20afago%20finito.mp3)
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Aos que não foram
17:16 | | 2 Comments
Velocidade máxima
Duas calçadas, uma faixa de pedestres. Você de um lado, eu do outro. Sinal fechado.
Seu primeiro passo, meu primeiro passo. Seu primeiro sorriso, meu primeiro receio. Longes, andando em direção ao outro.
Suas longas conversas, suas pequenas paqueras. Nossas longas noites. Nossos primeiros beijos. Nossas primeiras brigas. Nossas primeiras incertezas, de começo de faixa.
O primeiro encontro, no meio da faixa, cheio de primeiras cartas, primeiros amores, primeiros primeiros. Cheio de certezas, de lágrimas de felicidade. Cheio de sonhos e de casamentos.
Cada um, se aproximando mais ainda da outra calçada. Lembrando de si mesmo, esquecendo do outro. Dizendo estar cansado, estar magoado. Dizendo estar se sentindo mais sozinho do que quando está só.
Fim de faixa, o sinal avisa que vai abrir. A pressa do não querer ser atropelado. O não olhar pra trás. A urgência, o ato. Pulando listras sem receios.
O sinal abre. Eu na sua calçada, você na minha. E mais de mil carros entre nós.
Lucas.
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